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Sobre os heróis do amor masculino de Karim Aïnouz

"Praia de futuro" segue delicada curadoria de elenco e de ícones dos quatro filmes anteriores do circunspecto diretor
"Praia de futuro" segue delicada curadoria de elenco e de ícones dos quatro filmes anteriores do circunspecto diretor

“Praia do futuro” estreou em maio com uma polêmica medíocre acerca de suas cenas homoeróticas. No entanto, é preciso pontuar que o quinto título de Karim Aïnouz não é um filme de amor. Trata da dificuldade da troca de afetos masculinos, seja ele entre irmãos ou amantes. Se fosse um filme de amor, seria o do tipo triste: aquele que retrata quem se sente mais sozinho junto do que quando está separado. Digo isso pois “Praia do futuro” é um filme sobre fantasmas. E talvez não seja a vida que levamos que nos mate, mas sim nossas vidas-fantasmas, aquelas que não vivemos e que nos assombram: a vida vazia pelo amor perdido (representada com a morte do companheiro do alemão vivido por Clemens Schick); a escolha de morar em um lugar que não lhe faz feliz (depois de não conseguir salvar o outro alemão, o salva-vidas Donato, interpretado por Wagner Moura, vai viver longe do mar); ou a ausência de afeto familiar (o ressentimento do personagem de Jesuíta Barbosa por conta do abandono do irmão).

São essas faltas — tudo que abrimos mão ao longo dos nossos caminhos, mas que gostaríamos de ter vivido e não o fizemos — que dão cor ao mar acinzentado, às paisagens desérticas e às estradas sem rumo de “Praia do futuro”, filme que conta a estória do bombeiro Donato, que falha no salvamento de um dos dois motociclistas alemães que se banhavam na praia-título. Incumbido de informar ao turista que o seu companheiro morreu, Donato cria uma instantânea ligação com o sobrevivente e, a partir daí, se forma uma tríade de afetos masculinos — entre o salva-vidas, o sobrevivente e o irmão do primeiro, que havia ganhado o mundo.

Conceituando que a busca de uma forma de amor pode passar pela abdicação de outra, Karim Aïnouz promove uma viagem ao vazio da alma humana, em um postal para a admiração de poucos olhos sensíveis na multidão. “Praia do futuro” é a sua obra mais madura como autor, onde ficam evidentes um refinamento gráfico de seus quatro filmes anteriores, assim como a repetição e apropriação de elementos de sua iconografia pessoal como diretor e também a singularidade cada vez mais íntima de suas estórias.

Se você assistiu a “O céu de Sueli” (2006), deve ter imprimido imagens de apelo visual muito forte na memória, tal como as cenas de azul profundo. Em “Viajo porque preciso, volto porque te amo” (2009), o apuro plástico da montagem pode também estar na sua cabeça. É comum, nos filmes de Aïnouz, este banquete aos olhos. Por isso, a concepção imagética de “Praia do futuro” passa pelo contraste do uso da luz entre Fortaleza e Berlim, duas capitais completamente distintas — não só na iluminação natural, mas também em suas culturas e identidades emocionais. A luz do verão nordestino com exposição ao sol a pino vai em direção oposta à luz (ou falta dela) do inverno alemão; a herança da família nuclear brasileira que se contrapõe ao culto europeu à individualidade; a intensidade das emoções latinas se atrita com o pragmatismo do caráter germânico: é através deste contraste visual que estes temas e personagens encontram cenário para (des)encontrarem-se

Karim Aïnouz segue sobressaltando signos e elementos próprios para contar suas estórias: a estrada, a moto e o destino; o uso, o domínio e apropriação do corpo e da sexualidade; a viagem interior e a fuga geográfica; a comunicação entre o feminino (alma) e o masculino (concreto); lugares, cidades e luz; vazios, faltas e melancolia; busca. Filme a filme, o uso recorrente destes ícones se torna cada vez mais preciso. Assim como Lars Von Trier, que retoma temas autorais e se autorreferencia — como na citação imagética de “Anticristo” no meio de “Ninfomaníaca – Volume dois” —, Aïnouz volta ao tema da estrada como fuga emocional, presentes nos já mencionados “O céu…” e “Viajo…”.  Ao reutilizar estes símbolos, refaz um mito, uma utopia universal, de que é possível recomeçar do zero, limpar a ficha em uma outra localidade, uma outra vida. E também reafirma a ideia embutida na cultura local nordestina de que para “se fazer na vida” é preciso prosperar em outro lugar que não aquele em que se nasceu.

Há que se ir em busca — na busca de si mesmo. Ou simplesmente “sair-de-onde-estou-neste-momento”. Road-movies sem GPS emocional, são filmes onde o mapa se desenha enquanto se caminha. E o caminho é o que se torna importante e não o destino. “Viajo…” fala da busca da precisão geográfica deste mapa através das imagens, assim como Andrei Tarkovski fez em  “O espelho” (1975) e “Stalker” (1979). Nas três obras, a busca interna se dá através da exploração de espaços físicos

Sobressaltam também na filmografia de Aïnouz o arquétipo de heróis marginais (seus protagonistas são travestis, prostitutas, seres errantes e homossexuais). Neles, o diretor consegue tangibilizar toda a imensidão da natureza humana — tão singular e ao mesmo tempo tão abrangente.

Mas o que faz com que queiramos acompanhar estes personagens? A ideia simples de que todos eles carregam um pedaço de nós. E é a partir de perguntas, não de respostas, que o diretor costura seus protagonistas, pois não há certeza para ninguém. Só existe a vida e o que é possível se fazer com ela hoje.  Sim, a solidão está presente, mas a busca sempre continua.

Diante de uma curadoria tão impressionante de signos e repertório, é preciso falar da delicada escolha de elenco. Wagner Moura troca de pele na nossa frente, com um arco de interpretação comparável ao de Sean Penn:  ambos transitam entre filmes de personagens brutalmente rudes à extremamente sensíveis. Repare na linguagem corporal de Moura, que explora gestos contidos, ombros encolhidos e um olhar perdido para compor o seu frágil Donato. Jesuíta Barbosa, que já colecionava boas críticas pela sua talentosa performance em “Tatuagem” (2013), de Hilton Lacerda, se interpõe ao alemão Clemens Schick (num personagem irritantemente… alemão), desdobrando as durezas emocionais e frieza típicas de seus personagens.

Por estes e outros detalhes que dividi com vocês é que Karim Aïnouz é um cineasta que guardo ao lado de minhas outras grandes paixões — o dinamarquês Von Trier e o russo Tarkovsky. É confortante reconhecer o luxo de termos um autor do calibre de Aïnouz no Brasil. Cearense, ele consegue ultrapassar barreiras geográficas e ainda por cima seguir firme ao um pungente DNA nordestino, integrando seus filmes a plateias diversas e se firmando com o talento autoral que todo diretor de cinema sonha em ter e também em poder exercer. Realmente, um orgulho.


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