Há quem diga que “Ninfomaníaca”, novo longa do dinamarquês Lars Von Trier, com lançamento previsto para janeiro, será um épico erótico. Outros arriscam que se trata de um drama pornográfico. A curiosidade fica por conta da natureza do roteiro — a saga de uma mulher autodiagnosticada como ninfomaníaca, contada por ela própria ao homem que a salva de uma surra nas ruas — e as especulações que circundaram a produção do filme (teria Nicole Kidman rejeitado o papel principal?; os atores teriam feito sexo de fato?; Shia LaBeouf mandou mesmo para Von Trier um vídeo caseiro com uma performance sexual sua para ganhar um papel no filme?; quais seriam os personagens de Uma Thurman, Willem Dafoe e Christian Slater nessa orgia de talentos?).
Criador de obras de arte em cinema, diretor de filmes que abordam assuntos desconfortáveis e angustiantes, produtor de filmes pornográficos, artista polêmico tanto por suas escolhas visuais (que privilegiam nudez, sexo e violência) quanto por sua boca sem freios, Lars Von Trier também é por sua incrível de direção de atores e também por ser capaz de destruir atrizes durante este processo. Seja você um cinéfilo iniciado ou não na filmografia do autor, seguem três chaves distintas de abordar os filmes de um dos diretores mais relevantes da contemporaneidade.
CHAVE 1: “Coração de ouro” (ou a “Chave-Dogma”)
Von Trier é um diretor de trilogias. A primeira chave de entrada que propomos é a sua segunda trilogia, “The Golden Heart Trilogy”. Nela, os personagens principais de cada filme são providos de uma inocência extrema e um coração grandioso que os conduz através de suas jornadas por grandes tragédias e sofrimentos emocionais extremos. Fazem parte deste conjunto os filmes “Ondas do destino” (1996), “Os idiotas” (1998) e “Dançando no escuro” (2000).
Em “Ondas do destino”, Bess (Emily Watson) interpreta uma mulher religiosa com problemas psicológicos que se culpa pelo acidente que deixou seu marido paralítico. Seu coração de ouro é posto à prova quando o marido pede a ela que passe a manter relações sexuais com outros homens e depois lhe conte os detalhes. Já no longo de 1998, Karen (Bodil Jørgensen) deixa o filho recém-nascido morrer, após se envolver nas atividades de um grupo de adultos que decide desafiar o sistema se comportando como “idiotas”. Apesar da trilogia carregar a estética “Dogme95”, apenas “Os idiotas” é certificado como pertencente a esta escola cinematográfica, que propunha o uso da câmera de mão, iluminação natural, som local e outros preceitos rústicos.
Para iniciar a trilogia “Chave de ouro, “Freeze the Frame”, indica “Dançando no Escuro”. Selma Jezkova (Björk) é uma imigrante tcheca que trabalha numa fábrica no interior dos Estados Unidos. Misturando musical com uma overdose de emoções intensas, intensificada no seu final operístico, este foi o filme que deu a Lars Von Trier a Palma de Ouro em Cannes, assim como o prêmio de Melhor Atriz à cantora Björk, que entregou o seu próprio coração de ouro nas mãos do diretor. Com seus métodos pouco ortodoxos, extraiu da cantora uma interpretação visceral a qual levou-a à uma crise de desgaste mental e psicológico, fazendo jurar nunca mais trabalhar com Von Trier.
O resultado foi capturado pelas câmeras e explode na cena final em que podemos testemunhar a cantora em desespero emocional completo, gritando, histericamente (“com o capuz, não! Eu não consigo respirar!”), reagindo a uma das surpresinhas do diretor para estimular a sua performance. Björk definiu sua experiência como um “estupro emocional”. Posteriormente, em seu blog, ela publicou: “Trier precisa das mulheres para prover alma ao seu trabalho. E ele as inveja e as odeia por isso. E por esta razão ele precisa destruí-las durante as filmagens. E depois esconder as provas.”
CHAVE 2: “Pecados norte-americanos”
Como resposta às afirmações de que o diretor não poderia retratar em filme valores de um país e de um povo os quais ele sequer conhecia ou havia visitado, Von Trier criou a trilogia “USA – Land Of Opportunities” que, segundo o autor, tinha como mote principal retratar a hipocrisia e os pecados norte-americanos e ainda revelar os valores de uma sociedade baseada em valor econômico. Segue inacabado, com apenas dois filmes realizados até o momento, “Dogville” (2003) e “Manderlay” (2005).
Partindo de uma concepção visual visionária, ambos são filmados dentro de um galpão onde apenas marcações de giz no chão determinam os locais dentro das cidades cenográficas que dão nome aos filmes. Não há paredes e não existe nada além de esparsas peças de cenário como camas, cadeiras e objetos de cena para compor a cenografia. Esta fantástica escolha de direção remete a uma linguagem teatral adaptada para o cinema. Ela também força o espectador (ao longo das três horas de projeção) a dedicar sua atenção completa às questões morais que os filmes propõem, à interpretação de atores e à ação dramática integral e concomitante de todos os personagens das tramas, que simulam dentro de um espaço reduzido, quase como que em um laboratório, a hierarquia de uma sociedade e suas falhas de caráter.
De acordo com o diretor, “a maldade pode surgir em qualquer lugar, desde que a situação seja propícia”. “Dogville” aborda hipocrisia, abuso de poder, ética e estoicismo por meio da chegada de Grace (Nicole Kidman) em uma cidade interiorana dos Estados Unidos nos anos 1930. Ela busca um lugar para recomeçar a sua vida após deixar seu passado de luxo e riqueza para trás, numa espécie de metáfora dos imigrantes que formaram o país. Em “Manderlay”, Grace (agora interpretada por Bryce Dallas Howard) é estuprada em uma trama que discute igualdade racial, divisão de classes e democracia.
O misterioso capítulo final da série, intitulado “Washington”, nunca foi filmado e corre o risco de nunca ser. Em entrevista ao jornal Boston Globe, o diretor afirmou ter trabalhado por meio ano em um roteiro que uniria Kidman e Howard como irmãs, mas que após tanto tempo de trabalho, este teria sido completamente desprezado por não ter atingido o elevado padrão pessoal de qualidade do diretor, levando-o a sentir-se mentalmente exausto em sua dedicação à trilogia. Meses após a entrevista, Von Trier caiu em depressão profunda e assim permaneceu por anos.
CHAVE 3: “A dor invisível”
Todo artista comprometido com sua obra sabe que sua opus será sempre a cura para os males de sua alma. E talvez dessa forma, ele possa também vir curar a alma de tantos outros. Quando perguntado na coletiva de imprensa do Festival de Cannes 2009 sobre de onde havia vindo a ideia de “Anticristo”, o diretor — com um olhar vazio —, confidenciou: “De uma mente muito doente”. “Anticristo” dá início à “Trilogia da depressão”, um conjunto de obras que retratam o que passou pela cabeça do criador durante os anos de tortura mental e psicológica que a doença impôs a ele. A gênese deste trabalho surgiu a partir da seguinte consideração: e se a Terra fosse, na verdade, não uma criação de Deus, mas sim do Diabo?
A resposta se deu pela criação de um filme de gênero, de terror, onde a grande ameaça é algo que a grande maioria da população considera como uma dádiva: a natureza. “A natureza é a igreja do diabo”, profere a personagem de Charlotte Gainsbourg (creditada no filme somente como Ela), que tem seu filho morto pela queda de uma janela de um edifício, no mesmo momento em que ela chega ao orgasmo durante uma relação sexual com Ele, seu marido e pai da criança (vivido por Willem Dafoe).
A cena de abertura dá início também a uma nova tradição no trabalho de Von Trier: a de criar prólogos de grande beleza fotográfica e poética para seus filmes. A cena de sexo e morte de “Anticristo” é talvez a segunda imagem mais poderosa da estética cinematográfica do diretor, perdendo apenas para todo o imaginário de símbolos arquetípicos emprestados da pintura “Ophelia” (1851/2), de Everett Millais, e cinematografados para o prólogo de “Melancolia” (2011), que culmina com a imagem de Justine (Kirsten Dunst), deitada na superfície d’água com um buquê em suas mãos.
É com amor à obra deste artista que eu clamo que você escolha esta como sua chave-mestra para o autor. A metáfora aqui é a do planeta Melancholia, que lentamente entra em rota de colisão com a Terra, da mesma forma que a depressão vagarosamente atinge e engole Justine. Sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) é o contraponto pragmático: obstinada e metódica, acredita que a normalidade trará a saída para os males da alma da irmã.
No entanto é ela quem se vê ruir à medida que o planeta segue se aproximando e determinando sentença de morte a tudo que a rodeia. A sinopse de “Melancolia” surgiu durante uma sessão de psicoterapia. O diretor ouviu de sua analista que pessoas depressivas tendem a ficar mais calmas que outras em momentos de muita pressão, pois elas já esperam que coisas ruins irão acontecer.
O roteiro desenvolveu-se a partir de cartas que Von Trier trocava com Penélope Cruz, que na época mantinha desejo em trabalhar com o diretor e sugeria que ele a dirigisse na adaptação para o cinema da peça “As criadas”, de Jean Genet. Os temas deste filme continuam muito de acordo com o diretor e sua cinematografia: depressão, morte, medo, enfrentamento de fatalidades e também a fuga delas, levando a total perda de crenças.
Enraizada no filme e presente a cada cena de seu roteiro está a ideia categórica de que o ser humano está definitivamente só no mundo e que deve se a ver com esta condição, e que qualquer artifício que tenha como intuito preencher este vazio será sempre uma vã tentativa de escape de algo inevitável e inerente a condição humana. Fechando a “Trilogia da depressão”, vem em nosso caminho “Ninfomaníaca”, o filme mencionado na abertura desta coluna e que gerou a necessidade de trazer à tona para você toda a filmografia de um dos maiores diretores de nossos tempos. As chaves estão à sua disposição. Falta escolher qual fechadura você vai querer abrir primeiro.






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