“Água Viva” sofreu, hoje, uma conversão semelhante a esta das duas versões da mesma canção — “Cais”, a música mais temática da telenovela, o conceito da sinopse em melodia e letra. Deixou alguma leveza que ainda existia em sua história, como em “Cais” com Milton Nascimento, homem. Com Elis Regina, “Cais” se torna coisa de mulher e mulher que parte, que zarpa, que subverte, que se lança. “Eu só queria ser feliz”.
“Água Viva” foi um experimento sociocultural exemplar no Brasyl: o casamento da crítica da estrutura econômica e tão socioalienada quanto socioconsciente de um país visto pelo ângulo de uma classe média ainda muito europeia-descobrindo-os-trópicos, de Gilberto Braga, com a ode às mulheres num mosaico de Helenas que vão se alternando e bailando pelos cenários mais reais da época (sem Projac, a rua e os apartamentos eram rough-naturalistas, evocavam muito mais a verdade nacional, sem a plastificação anal-retentiva de recalques com Hollywood) de Manoel Carlos, um cronista da Zona Sul e do que há de qualquer mundo dentro da Zona Sul.
“Água Viva” é um vale tudo de mulheres, mas não, para mulheres. Elas protagonizam e agonizam e antagonizam. São viúvas, desquitadas, solteironas, apaixonadas, casadas, em crise, sem crise, despeitadas, ingênuas, equivocadas, mulheres que vão à luta. Engraçado começar o texto com “hoje” porque o capítulo que passou hoje no Canal Viva é algo de um artigo de 1980. Mas, o capítulo de hoje foi bem de hoje mesmo porque nos deu a entender que muitas das conquistas ditas femininas — não deveriam apenas haver conquistas da sociedade como um ente inteiro, formado por mulheres e homens, crianças e velhos e jovens, marginais e dentro-da-lei, poetas e administradores de empresas? — são, ainda ainda e ainda, ilusórias. Betty Faria, que é Lígia Prado, era, ontem, um colosso de realização independente, fora dos spotlights de qualquer macho, dona de sua loja “transada”, aspirando à requintada business-dama, se fazendo sozinha, no do-it-yourself dramático de uma mulher desquitada, com dois filhos de dois casamentos diferentes num país de terceiro mundo. Esta sabia a dor de se lançar e inventou o cais.
Num cais, conheceu Reginaldo Faria vivendo Nelson Fragonard, um anti-herói como não lembro de ter visto antes em telenovelas. Um cara cheio de incertezas, nem fodido o suficiente para estancar seu charme matador, tampouco podendo oferecer qualquer indício de segurança. Não, material, apenas, mas aquela certa segurança de atitude que mulher tanto aprecia (apreço $$$, pode ser). Protagonista que vive num barco, era isso que Reginaldo era. Cara inteligente pacas, sensível ao extremo, lobo do mar mas não, um aventureiro de sucesso, o que faz toda a diferença na equação. O glamour de Nelson era ser legítimo dentro de sua ética do erro. Aparente erro porque a história insinua, por ora, que Nelson é vítima de algum golpe envolvendo a família e não por acaso, seria ele o pai da pequena órfã, que faz a história girar em torno de si mesma, numa discrição magistral imposta pelos habilidosos autores.
Mas, justamente quando Lígia pontificava para sua amiga — Arlete Salles, que interpreta a boa camarada Celeste, a típica melhor amiga da heroína, capaz de ouvir por muitas horas e falar as coisas num tom adequado — sobre sua arduamente conquistada posição socioeconômica, como uma proto-yuppie de saias, ao mesmo tempo que soando ingênua como uma deslumbrada dona de pequena confecção com o aumento súbito do número de encomendas, afirmando que não mais procuraria segurança material em um homem, mas somente o frisson da paixão como o que teve com o inesquecível Nelson, vem um vento.
Uma ventania chamada Carlos Eduardo Dolabella, mais Dado que o próprio filho, chegando de camisa aberta e calça de linho, tudo branco, o protótipo do cafajestão que frequentava a boate Hippopotamus naqueles tempos, o papagaio de pirata de Ibrahim Sued nas festas de Estela Simpson (Tônia Carreiro), a socialite desencucada que vive em um desfile de modas e num apartamento com móveis espelhados e divisões de cômodos em arcos moldados em aço escovado onde a vida é um simulacro de si mesma numa punheta de prazer perpétuo entre copos cheios por garçons invisíveis e sessões de cinema seguidas de debates animados entre aqueles que podem olhar a vida de cima.
Estela é um diamante de frugalidade na trama mas que não deixa de carregar sua sabedoria, defendida com maestria por Tônia em sua louritude mítica. Esse vento que também atende por “ex-marido” vem mostrar à Lígia que os negócios podiam ir bem, mas o apartamento da família, ou seja, a base ainda pertencia a ele. E é nesse momento que se dá a virada, que o piano soberbo com coral afroprog da versão de Milton se dilui e dá lugar à sombria percussão da versão de Elis, estocada por uma batida vacilante e assombrada por uma espécie de flauta de Pan.
Quando Lígia se soltava, chega a ameaça, a mão do homem que vem tirar e isso faz com que ela caia em outras mãos masculinas, as mãos do irmão bem resolvido de Nelson, o doutor Miguel Fragonard (Raul Cortez), um tipo probo e low profile, mas de uma arrogância tão perniciosa quanto a do irmão, ambos às voltas com suas fraquezas.
No entanto, o que interessa é que a mulher ainda vive revezes impostos por uma estrutura patriarcal, refém de arranjos profissionais e familiares muito frágeis, mas hoje, mascarados pela sua penetração nos cargos corporativos, ou seja, na guerra civilizada dos homens brancos. Lígia, lá em 1980, poderá inventar mais que a solidão puder lhe dar? Porque ficar com um homem por segurança é um pacto pela solidão, certamente. Ou inventará um cais?
Mas será o cais sempre o lugar onde essa protagonista heroica, que se levanta e reconstrói o cenário em cacos com sua própria força, espera um homem como Nelson, um viajante inconsequente, cuja segurança só existe em beijos e abraços salgados por mergulhos livres? É sempre o homem que vai resgatar a mulher de outro homem? De si mesma, já sabemos que não é porque essa mulher jamais é “completamente feliz” sendo mãe, profissional, amiga, agente transformador de sua própria vida.
Lígia Prado sabia em sua conversa com Celeste que “faltava alguma coisa”. Talvez faltasse a ventania que toda mulher sabe que derruba a porta um dia.
[ TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO TUMBLR DA AUTORA ]






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