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Warpaint leva ritual hipnótico ao Circo Voador

Grupo vocal formado por quatro multi-instrumentistas californianas traz estética paz & amor à Lapa
Grupo vocal formado por quatro multi-instrumentistas californianas traz estética paz & amor à Lapa

As californianas do Warpaint fizeram no Circo Voador, na sexta-feira passada, graças a mais uma iniciativa do Queremos, uma apresentação que pode ser definida em uma palavra: hipnótica. Algumas cariocas empolgadas e espertas levaram maquininhas de bolha de sabão que contribuíram para a sensação de hipnose, uma vez que Emily Kokal, a mais performática da banda, ficou brincando com as bolhinhas, ora soprando-as, ora estourando-as. Nada a ver com um daqueles anúncios de absorvente que querem transmitir calidez e segurança. Tudo a ver com a própria música do Warpaint, ora delicada como um sopro, ora perturbada por um estouro que a intensifica, em seguida.

Com essa dinâmica bem pós-punk, adornada devidamente por guitarras que lembravam The Cure, Siouxsie & The Banshees e o Cocteau Twins em sua primeira fase, as quatro forças bem diferentes da banda levaram o público do Circo ao transe. A baterista Stella Mozgawa, doce e furiosa – a melhor batera feminina que já vi em ação, vale anotar – era a rocker do grupo, de camiseta e short preto. Emily, principal vocalista e guitarrista, era a imagem folk-casual, com seu xale/cachecol ocre enrolado no pescoço, que às vezes, saía de órbita junto com ela e sua free dance. Theresa Wayman, a guitarrista bonitinha de franjinha e perna fina fazia a colegial grunge, de saia xadrez e meia-calça rasgada, mas sem qualquer afetação. No centro do palco, a figura mais enigmática do Warpaint, com cabelo curto, meio raspado, meio topetudo era Lee Jenny Lindberg, responsável pelo baixo e por uma certa baianidade nagô com seu look Índia macumbeira urdido por uma sobreposição de vestido branco tipo toalha de mesa e saia indiana em tons de marrom.

Aliás, o clima “eu queria que essa fantasia fosse eterna/quem sabe um dia/a paz vence a guerra/e viver será só festejar” contrastava com o nome da banda. Se desse pra pensar em guerra durante o show do Warpaint, só daria pra lembrar da aura “mulher foi feita pra sofrer” da minissérie A Casa das Sete Mulheres, em que as personagens centrais viviam de esperar seus amores voltarem da Guerra dos Farrapos. A aura daquela interpretação ao vivo das canções do único álbum do grupo, “The Fool”, lançado em outubro do ano passado, era assim, de suavidade, sensualidade e angústia.

E mais ícones femininos se juntavam no imaginário perpetrado pelo Warpaint em sua jornada escura no Circo Voador, às vezes sutilmente iluminada de um tom bordô: aquilo bem poderia ser trilha de um conto de Clarice Lispector, com suas investidas misteriosas e rompantes de felicidade extrema, assim como vinha à cabeça a figura de Isadora Duncan, uma vez que todas as meninas estavam descalças e bastante à vontade com seu deslizar sobre o palco.

E mesmo quando o deslizar se converteu em deslize, devido a um problema persistente com o baixo de Lee Jenny, que fez a música de abertura, “Warpaint”, ser iniciada nada menos que três vezes, as meninas nos deram uma rendição mágica, sabendo que boa mágica tem que aparentar ser fácil de ser executada. Nada acanhadas e afim de aproveitarem o habitualmente loud & warm público carioca, elas foram sorrindo, batucando, conversando, enfim, contornando a falha técnica na maior graciosidade e, ainda por cima, com direito a uma versão da canção levada apenas por Emily e Stella, nas baquetas.

Depois de mais de cinco minutos de vai-e-vem, o Warpaint estava decididamente em seu jogo e foi enfileirando as canções de “The Fool”, que navegam entre o contrito e o irrestrito. “Bees” ficou com um feeling ainda mais Cocteau Twins ao vivo, “Burgundy” fez lembrar uma Bat For Lashes com mais sentimento e “Composure”, a quarta canção da noite, com seus vários andamentos amarrados apenas pela voz de Emily, começou a evidenciar um dos maiores trunfos da banda ao vivo, que é o entrosamento absurdamente perfeito entre as meninas, duas delas, amigas de infância.

Depois de “Composure”, o show foi ganhando seu espírito xamânico e o que eram quatro garotas soltas e descalças brincando com seus instrumentos e fazendo música muito bonita, virou uma sessão de hipnose. O maior hit da banda, “Undertow”, que chegou a ter seu clipe rodando na MTV Mega Hits, apareceu menos pop e mais tribal. Em seguida, elas apresentaram “A New Song”, bastante reminiscente do The Cure mais experimental dos primeiros anos. O pós-punk Califórnia sombria de notas que surfam entre os dedos continuou com “Majesty” e “Elephants”, que encerrou o show em seu pico de beleza.

Depois de pedidos insistentes de bis, um artigo cada vez mais raro no mercado musical, somente Emily entrou com sua lata de Red Bull e o xale cheio de asas. Pegou sua guitarra e começou a dedilhar “Baby”, a baladona folk de “The Fool”, pomposa em seu tom baixo, beirando o sussurro. E quando ela cantou os primeiros versos (“Don’t you call anybody else baby,  ‘cause I’m your baby still”), muitas lágrimas tímidas devem ter rolado no Circo. Após a apoteose contida de “Baby”, a banda inteira voltou para a ultimíssima, a marcial “Set your arms down”, que nos deu a certeza de termos tido o privilégio de ver uma das melhores bandas atuais, em dourado frescor, no delicioso período entre ser descoberta pelo grande público  seja lá o que isso venha a ser em tempos de consumo digital segmentado  e já estar consistente e madura o suficiente para frequentar os melhores festivais do mundo (Glastonbury e Readings, na Inglaterra, por exemplo), como fez durante 2011.

E para um daqueles sujeitos conhecedores de boa música que estavam na arena de bolso da Lapa, esse show provavelmente entrará para o rol de experiências inesquecíveis: um magricela cabeludo que subiu ao palco pelas mãos da baixista e foi tocar junto com Stella, na melhor demonstração de “tudo junto e misturado”, coisa de artista que ainda está bem próximo de seu público.

Mas cuidado, que essas meninas têm muito brilho pop por baixo das guitarras artsy e, de cultuadas por hipsters paz & amor, hoje, perigam virar queridinhas sexy-excêntricas amanhã, e até estarem no line-up do próximo Rock in Rio com seu ritual hipnótico.


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