O cenário era mais do que frutífero quando o diretor Rog Souza começou a rabiscar o roteiro de “Noir”, fashion film de lançamento da marca de acessórios de couro PP. Em primeiro lugar, a proposta era soltar a mão: recém-contratado pela produtora Zola, com sedes no Rio e em São Paulo, se aliou ao fotógrafo de moda Ivan Abujamra e ao diretor de arte Vokos para criar um filme conceitual que apresentasse uma marca de moda sem compromissos comerciais. Segundo, porque eles conseguiram produzir tudo em quatro dias (começaram na quinta reservando locação, acionando modelos, montando equipe de maquiagem e rodaram no domingo). E por último, uma questão pessoal, que o próprio Rog explica para o TNFP.
— Minha esposa é uma das donas da marca, então a minha margem criativa era larga —brincou, por e-mail.
Na cabeça do diretor, estava o trabalho conceitual da joalheria norueguesa Bjorn Jewerley, o portfólio criativo da pesquisadora de tendências alemã Lidewiji Edelkoort e a videodança “Valtari”, projeto do grupo islandês Sigur Rós. Obecado pela cor preta (“Eu queria preto, queria filmar na cor preta”), decidiram retirar toda a informação do estúdio para explorar o potencial do couro, que é o protagonista da PP, e vivenciar a atitude das modelos.
Com uso de uma possante lente para macros, Ivan Abujamra criou uma poética analogia entre a pele das costas da modelo Michelli Provensi e o toque do couro, cuja essência é mantida pelas designers Petula Silveira e Amanda Py na concepção das bolsas PP. A preocupação da dupla com o caráter sustentável de suas criações, inclusive, é refletida desde a compra do material, que é adquirido em fábricas do sapato (como você pode ver neste vídeo).
O foco da marca é o upcycle: evitar o crescimento tóxico do planeta por meio da compra de couro excedente da indústria. O que sobra da produção de uma bolsa é usado para carteiras e capas de tablets; os retalhos que restam viram matéria-prima; do miolo, fazem os tags; e pequenos filetes são doados para trabalhos escolares.
A questão de aproveitamento absoluto do material é refletida com o styling interessante, porém sem truques: inspirada pela simplicidade e pelo requinte da cor preta, que privilegiou produto e luz no filme, a stylist Isabel Zachow vestiu as modelos Michelli e Manu Zachow com peças minimalistas. Em algumas cenas, Michelli aparece nua, vestida fundamentalmente com as bolsas. Tudo a ver: como Petula e Amanda extraem o máximo do couro na sua produção, as bolsas da PP são usadas em sua integralidade.
A trilha composta por Márcio Chavemarin, da agência de produção musical Croacia, começa com cordas líricas e ganha uma velocidade alucinada, neurótica, refletida nos takes finais.
— Tinha cenas lindas com traquitanas de luz em quadro, imagens típicas dos bastidores de editoriais de moda. Mas isso era tudo o que não queríamos — contou Rog, que ainda subverteu insights de edição. — Nunca cortei no ponto. Quem entende de montagem, sabe que dá pra montar no feeling, no estalar dos dedos. Eu, sempre que estalei os dedos, contei mais alguns segundinhos antes de cortar. Ou cortei antes.
Em dois momentos da entrevista ao TNFP, Rog Souza fala sobre o mercado de publicidade. Mudando a forma de montar uma cena, ele diz que “seria internado se deixasse uma tela preta no meio da montagem”.
Seriam os gritos das modelos nos segundos finais do fashion film um sinal de exorcismo à normalidade do mercado comercial?
— Deixei blacks no meio do filme, buracos sem cena. Foi um exorcismo. E nem precisei brigar por eles: eles se explicavam, somavam ao esquisito, ao estranho do filme.





Comentários