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Blogosfera é o mais novo alvo de Lily Allen. Qual será o próximo?

Em "URL badman", lançado em julho, cantora britânica critica blogueiros e lista os ícones de consumo hipster em rap
Em "URL badman", lançado em julho, cantora britânica critica blogueiros e lista os ícones de consumo hipster em rap

Em seu videoclipe mais recente, “URL badman”, Lily Allen critica ferozmente os articuladores da internet 2.0. Pura ironia, já que a cantora britânica que tornou-se célebre por suas letras provocativas questiona a blogosfera oito anos depois de ter sido impulsionada por ela. Para quem não lembra, saiba que foi graças ao MySpace que “Alright, still” pegou: em 2006, quando se lançou no mercado fonográfico fazendo uma deliciosa mistura de pop e reggae, a comunicação feita com seus fãs através da rede musical ajudou (e muito) à desbocada artista a se tornar (ainda mais) famosa.

Agora ela divaga sobre o “campeão da banda larga”, dizendo que ele é o “homem mal da internet” (tradução livre para o nome da música nova), porque “não trola, cria statements” e, mesmo sendo uma pessoa que trabalha “no porão da casa dos pais”, “vestindo pijamas”, “óculos sem prescrição” e “shorts curtos por convicção”, fica “aborrecido se alguém não gostar” dele, pois “quer mudar o mundo” trabalhando e “quando crescer, sonha em escrever para a revista Vice”.

A colagem acima é feita com vários trechos da música “URL badman”, que ainda ganha mais acidez quando, em um rap, Lily pontua ícones de consumo hipster (Complex, Pitchfork, Ursinho Pooh, Tyler the Creator, A$ap, Kanye, XX…). Reforçando a ironia, o videoclipe começa com a imagem de um garoto sentado na escrivaninha de seu quarto, embalado pelos ruídos incidentais de um teclado de computador (a insinuação é que ele digita muito rápido). De costas, já perceber-se que o rapaz preenche todos os arquétipos do típico nerd: veste camisa com estampa cafona, é ligeiramente agordinhado, tem lordose (pois passa o dia curvado diante da tela). Na cabeça, boné. Também usa óculos, é claro, e está vestindo shorts apertados.

Logo depois de responder para sua mãe que já está indo jantar, a câmera dá uma girada de 360 graus no eixo do personagem. Enquanto ele fita o computador, Lily surge atrás do cara sentada em sua cama, como se estivesse decodificando sua personalidade. No decorrer da primeira estrofe, a imagem dele começa a sofrer um (d)efeito especial, dando a impressão que sua personalidade está sendo criptografada. Pixels sugerem que há problemas de download; em seguida, a imagem do garoto pisca, treme, fica nublada.

Por fim, ele é dividido no meio com um truque de edição 3D que acaba se repetindo em todo o clipe. É como se o pixel central do seu tronco fosse esticado, causando um efeito sanfona entre os dois hemisférios do seu corpo. Fica claro que a parábola visual assere que os blogueiros, na visão de Lily, são como bonecos de mola, pessoas que abrem mão de escrever sobre assuntos interessantes para ficarem em cima do muro. Como falar mal dá mais audiência do que falar bem, eles atacam para ganhar fama.

“URL badman” é o quinto single de “Sheezus”. Em novembro, quando lançou o vídeo de “Hard out here”, o qual criticava a sociedade pela incessante cobrança ao corpo perfeito, Lily estava acima do peso e foi massacrada pela blogosfera. Com a música-título — que ganhou um clipe sem roteiro, somente pautado em filtros psicodélicos — divagou sobre feminismo.

A rivalidade que existe entre as pop stars Rihanna, Lady Gaga, Beyoncé e Kary Perry é comentada em entrevista para a MTV: “O refrão fala sobre as mulheres que são manipuladas umas contra as outras; no ramo da música, sempre existe uma rainha e eu acho que todas nós podemos ser rainhas”. Logo depois, atacou as inglesas bem nascidas em “Our time” (“Vamos esquecer de tudo e colocar nossos absorvente; vamos nos arrumar como as rainhas da noite (…) Eu estou arrasando com meu look Kenzo; vou ficar doidona mas não preciso de remédio tarja preta para isso”). Mais uma ironia, já que ela se encaixa neste estereótipo.

Lily embeda esta provocação quando contracena com quatro versões de si mesma dentro de um táxi inglês. A ideia não é nova: em 1996, Alanis Morissette já havia interpretados quatro personas suas em “Ironic” (igualmente dentro de um carro) e dois anos depois foi a vez de Mariah Carey brigar com si mesma no cinema de “Heartbreaker”. Em “Our time” tem também cena de treta entre uma Lily underground (cabelos louros e longos, luvas de couro sem dedos — a cara das garotas barra-pesada que saem para encher a cara em Shoreditch), com uma menina humilde que trabalha vestida de cachorro-quente em uma lanchonete de Vauxhall (bairro de South London).

No fim deste vídeo, quando o taxista cobra 67 libras pela corrida, fica claro que as outras três garotas (a quarta era uma tradicional fashionista de Chelsea) não passaram de uma alucinação etílica. A Lily Allen que começa o vídeo (uma edição über posh de si mesma, que chega em casa, na região de Camden Town, cambaleando em cima de ankle boots altíssimas e devidamente protegida por seu casaco de pele) diz que não consegue encontrar o dinheiro e dá um calote no motorista, que ainda diz que foi ela quem quis ficar circulando randomicamente por Londres. Típico.

Sair em defesa de uma silhueta delgada, atirar contra os ícones da indústria pop, questionar o esvaziamento das meninas londrinas e ridicularizar a blogosfera são só mais uma linha de diálogo da verborragia que sempre foi a tônica de Lily Allen.

Para a estreia de de seu segundo disco, “It’s not me, It’s you” (2008), a cantora escolheu a música “Fuck you”, cujo refrão faz um trocadilho com o termo “thank you very much” e é uma crítica aberta ao então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush (“Você diz que não é normal ser gay; você é um racista que não serve pra amarrar meus cadarços; seu ponto de vista é medieval”).

Em “Not fair”, ela cantava sobre um cara grudento e que não era bom de cama. Já em “He wasn’t there”, ela fala da ausência do pai na sua criação em ritmo de trilha de sapateado: “Ele não estava lá quando precisei; ele nunca estava por perto; eu não me importo com as mentiras que ele contava; tudo o que eu sabia era que ele me amava; ele era meu herói disfarçado”).

No primeiro clipe de “Alright, still”, “Smile”, de 2006, ela dá o troco em um namorado que trocou ela pela vizinha. Uma Lily Allen que combina vestido romântico com tênis esportivos (“o” visual do próximo verão brasileiro, anotem aí) contrata uma gangue para bater no cara (que é DJ), coloca laxante na bebida dele e ainda arranha todos os seus vinis. Talvez esta estratégia de ataque seja uma defesa. Lily passou por mais de dez escolas britânicas e seus excessos com álcool em drogas foram manchetes constantes dos tabloides britânicos.

O bebê que teria com Ed Simons, um dos DJs da dupla The Chemical Brothers, não chegou ao quarto mês de gestação, devido a um aborto espontâneo. Em março de 2010, no fim da turnê mundial de “It’s not me, it’s you”, Lily declarou que encerraria a sua carreira para se dedicar a outros projetos. Nove meses depois, sofreu novo aborto, beirando a 30ª semana, tendo ainda uma grave infecção no sangue. Entrou em depressão e engordou muitos quilos. Atualmente é casada com o arquiteto Sam Cooper, com quem tem dois filhos.

Criticar as colegas artistas, as patricinhas londrinas e os blogueiros autodidatas é a forma que ela encontrou de continuar exercendo a sua verve polêmica e manter uma cerca em volta da sua família. Lily Allen, afinal, criou a marca de criticar tudo que lhe dá na telha com uma voz de princesinha. Alguém arrisca qual será o próximo alvo?


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