VIDEOCLIPES

O #selfie de Sara Bareilles te convida a dançar bravamente

Clipe da californiana é uma referência à mania de se autorretratar que povoa as redes sociais
Clipe da californiana é uma referência à mania de se autorretratar que povoa as redes sociais

Videoclipes otimistas, com gente ensaiadinha fazendo coreografias pra lá de fofas, já vimos aos montes. Mas “Brave”, de Sara Bareilles, traz uma mensagem nova. Decerto que também sentimos frescor quando Spike Jonze desmitificou a esquisitice de Björk com a coreografia nonsense de “It’s oh só quite”, de 1995 (lembrando: a lata de correio dança com a cantora islandesa, que termina o clipe sobrevoando o cenário). Ou quando Patrick Daughters montou uma cena de patinação de gelo sem patins e sem gelo em “1 2 3 4” (2007), com pessoinhas coloridinhas aparecendo e desaparecendo atrás de Feist (que, vejam só, até usava figurino lusco-fusco, à moda das atletas que praticam ginástica artística).

Mas no vídeo de Sara — um filme simples, aliás, onde a artista canta numa praça pública de Los Angeles e cenas de pessoas comuns dançando em lugares improváveis aparecem intercortadas — o que chama a atenção é o endosso à autopromoção nossa de cada dia. E esta autopromoção, acreditem, pode fazer anônimos se tornarem célebres personalidades. Duvida?

Para entender o quão contemporânea é a mensagem por trás de “Brave”, atente a dois takes importantes que configuram as danças da galera comum como uma manifestação superatual e, inclusive, mais contundente do que a performance da cantora em si. E, não por coincidência, estes códigos iniciam e encerram o filme musical.

No primeiro segundo do clipe, Sara surge em superclose, mexendo na tela da câmera. A insinuação é ululante: enquanto ela mesma posiciona o aparelho que vai captar sua apresentação, há um desejo da diretora Rashida Jones em simbolizar que todo o vídeo resulta de um autorregistro. Já a sequência final do shopping center, quando a música baixa e uma voz pergunta a um senhorizinho se ele sabe o que está acontecendo, Rashida evoca o universo da “câmera escondida”.

No primeiro ponto, existe um código muito conhecido de quem é afeito a autorretratos em redes sociais: Sara ativa a iconografia do #selfie quando indica que tudo que veremos a seguir é o resultado de uma autofilmagem. Não vemos o adolescente obeso mexendo na câmera na biblioteca, muito menos o cara barbudo fazendo o mesmo no ponto de ônibus. Nem a garota negra, nem o homem da academia, nem a tresloucada de roupas esportivas, nem o tal oriental no shopping travam contato direto com a câmera.

Mas iniciar o vídeo com a artista enquadrando a lente na cena convida todos os demais a se filmarem. E especialmente no bloco do shopping, a inclusão de várias texturas de vídeos e ângulos inusitados insinuam que aquela filmagem se deu por meio de um ação colaborativa.

Ao fim, como nada em “Brave” foi de fato acidental, a ficcionalização do flagra me remete à “Praise you”, do Fatboy Slim, obra de arte audiovisual de 1999 também assinada por Spike Jonze. Da estética oriunda da década de 1980 (fotografia estilo gravações de VHS e Betamax) à decisão de assinar o trabalho com o pseudônimo Richard Koufey, Jonze chegou a criar um grupo de dança fictício para se apresentar na porta do cinema californiano que é usado como locação.

O diretor chegou a batizar o time de street dance com um nome (The Torrance Community Dance Group) que sequer é creditado no clipe — tudo para deixar a ação de guerrilha que é o grande charme do filme a mais realística possível. Assim, o espectador conectaria a performance ensaiada às apresentações ao vivo feitas diariamente em esquinas e nas estações de metrô dos Estados Unidos.

No entanto, “Brave”, como comecei este texto anunciando, tem uma mensagem além do roteiro. Fazendo uso de um otimismo já tradicional entre as instrumentistas pops de hoje em dia, Sara Bareilles convida o espectador a dançar como se ninguém estivesse olhando. E além de dançar, que também se filme. Enaltecendo a prática do #selfie do começo a fim, a diretora Rashida Jones coaduna, em subtexto, que nas redes sociais todos nós somos os artistas — nem que seja para os nossos próprios seguidores.


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