VIDEOCLIPES

#LoveWins: seis videoclipes que já sabiam que o amor ganha

Montamos uma playlist em tributo a liberação do casamento gay em todo o território norte-americano
Montamos uma playlist em tributo a liberação do casamento gay em todo o território norte-americano

São 23H23 e todo o meu Facebook está libertariamente colorido. O veto da Suprema Corte dos Estados Unidos contra todos os estados que não autorizavam o matrimônio homoafetivo ganhou repercussões apaixonadas nesta e em outras redes sociais. Sim, estamos vivendo uma data histórica e, em comemoração a isto, uma campanha digital foi lançada no Facebook convidando usuários a usar o aplicativo Celebrate Pride para aplicar as cores do arco-íris gay avatar de seus perfis. No começo da tarde, a hashtag #LoveWins entrou no trending topics do Twitter e, até o fechamento desta matéria, mais de 867 mil menções foram encontradas sobre o assunto no Instagram. Inspirados pelas timelines que acenam para o amor livre, montamos uma playlist LGBT com videoclipes que, muito antes de Barack Obama, já sabiam que o amor ganha.

O CLIPE VERMELHO: SIGUR RÓS, “Viðrar vel til loftárása”

Difícil assistir o representativo videoclipe da banda islandesa semente como um videoclipe. Eleito como Melhor Vídeo de 2002 no Icelandic Music Awards, o curta de sete minutos é uma obra de arte de forte impacto audiovisual. A estética é diretamente inspirada nos quadros folclóricos de pintura realista que, até o começo dos anos 2000, decoravam a maioria residências escandinavas. Mas a história aqui não tem nada de tradicional: quem não se identifica com a solidão de um menino que, em vez de jogar futebol, prefere brincar sozinho, por falta de conexão com outras crianças do mesmo sexo? Escondido à margem de um deque no litoral de Reiquiavique, suas únicas amigas são duas bonecas quebradas, antigas, manchadas. Brinquedos que, embora destituídos de elementos pops, carregam sentimento, história e significado. O seu único amigo, um garoto igualmente sem identificação com outros garotos da mesma idade, o observa,sem conseguir fazer contato. A presença do pai do primeiro garoto na história é pontual: ele está ali para reafirmar que na audaciosa cultura viking, homens não podem ser sensíveis. A cena do jogo de futebol é o que confirma o vídeo do Sigur Rós como uma obra-prima videográfica.Toda filmada em slow motion, a celebração do gol ganha tintas ainda mais tocantes quando se forma uma montanha de meninos sobre a grama e, conforme cada um deles vai se levantando, o beijo das duas crianças é revelado. Intensa também — e, sobretudo, controversa — é a atitude do pai do garoto, que irrompe o campo para arrastá-lo dali. Os frames finais, das bonecas voando — um casal de meninas, que fique claro — encerra com ainda mais lirismo o videoclipe islandês.

O CLIPE LARANJA: ARCADE FIRE, “WE EXIST”

Andrew Garfield não era mais Andrew Garfield quando foi convidado por Win Butler, vocalista do Arcade Fire, para interpretar o adolescente involucrado de “We exist”. A letra que retratava as dificuldades domésticas de um jovem sem diálogo com a sua família foi escrita pelo líder da banda canadense diretamente focada nos gays que, mesmo com tanta visibilidade, ainda são considerados invisíveis em casa. No clipe, Andrew, então consagrado pelo primeiro filme da segunda franquia de “O espetacular Homem-aranha”, aparece raspando a cabeça, se maquiando e escolhendo roupas femininas para sair. Todo o processo de resignificação funciona tal como um batismo: enquanto camadas masculinas vão sendo despidas, o jovem transgênero vai tomando tomando contato com a sua real identidade. Camisaria western, com direito a nó na cintura para exibir a barriga, shorts jeans, tamancos e uma peruca loura ajudam na personificação. A cena onírica do bar, onde o protagonista encara uma coreografia feminina e sensual, é o ponto de conexão para o fantasioso portal, que transporta o personagem para um show do Arcade Fire no festival de Coachella. Nesta passagem final, Andrew passa pelo público, sobe as escadas e encara a plateia. Enquanto a banda continua a se apresentar, ele repete a coreografia do bar, desta vez ainda mais feminina, usando um vestido de renda e maquiagem fúcsia em sintonia com a beleza assumida pelo Arcade Fire no álbum “Reflektor” (2013).

O CLIPE AMARELO: THE KNIFE ,“PASS THIS ON”

Uma transex belíssima, trajando um vestido de cetim assimétrico (curto e reto na frente, comprido e fluido na parte atrás), faz uma dublagem comovente em um bar rústico provavelmente instalado no interior da Suécia, país de origem do duo eletrônico The Knife. A primeira metade do videoclipe é dedicada à reação do público que assiste o seu show. As veias saltadas nos braços magros e os fios elétricos de sua cabeleira artificial loura assustam algumas pessoas e instigam outras. Alguns levantam, outros reclamam, e uma garota (Karin Dreijer Andersson, integrante do The Knife) permanece incólume na cadeira, com um olhar que é um misto de surpresa e reprovação. Quase no segundo minuto de clipe, um rapaz esportivo (Olof Dreijer, a outra metade do projeto sueco de música eletrônica) é fisgado pelo magnetismo da performer (é  preciso chamar atenção para a atuação absurda de Rickard Engfors). Depois de uma troca de olhares, o sporty boy desliza na pista do bar com um body language impressionante. A dancinha melemolente, livre de preconceitos, é observada por Miss Engfors com um certo mistério que denotava um certo orgulho. Mas a atitude do boy magya rapidamente contagiam as pessoas do bar, que, uma a uma, levantam-se e começam a se entregar a movimentos lânguidos. Fica claro no clipe que o  rapaz hipnotizado pela transex não está necessariamente interessado nela em termos sexuais. Ele se interessa pela sua autoconfiança, por tudo que está sendo dito por meio do lip sync, pelo mistério, pela atitude. Ele se interessa pela resignação ao olhar de censura, pela sutileza, pela força, pelo olhar, pela expressão, pelo carão.

O CLIPE VERDE: T.A.T.U., “ALL THE THINGS SHE SAID”

Elas foram acusadas de oportunistas, porque, no fim das contas, Yulia Volkova e Lena Katina não eram lésbicas. Mas os beijos quentes que a dupla de colegiais troca no videoclipe de 2002 provocou a ira não só da família tradicional russa que observava a atitude rebelde das meninas debaixo de uma chuva catalizadora em  “All the things she said”. A grade que separa a sociedade das meninas é óbvia: simboliza o abismo entre apolíticos e integrados, hétero normativos e homos, antigos e novos. Atitudes provocativas incitam quem defende os “bons costumes”. Mas o que a sociedade LGBT não entendeu na ocasião do lançamentos do videoclipe é que a estratégia de marketing de Yulia e Lena funcionam como um quebra-quebra em dia de protesto: seja mentira ou seja verdade, as minorias precisam ser posicionadas.

O CLIPE AZUL: ERASURE, “A LITLE RESPECT”

Data de 1988 a carta de amor que Andy Bell escreveu à uma paixão não correspondida. Mas “A little respect”, hit número 1 da dupla britânica que chegou ao topo das paradas, logo tornou-se um hino geracional em um delicado momento de abertura sexoafetiva. Mal sabia o que estava fazendo o vocalista do Erasure — um inglês lourinho, franzino, cujo estilo minimalista de se vestir, quase sempre com camiseta branca justérrima e calça jeans igualmente apertada; estilo este que, poucos anos a seguir, se tornaria a marca de fotógrafos como Herb Hitts e Bruce Hebber. Com este number one, Bell injetava um particular clima de realismo ao cenário musical da época: “Respect”, afinal, logo foi adaptada como uma música em prol do respeito pela decisão que cada um toma quando escolhe quem quer amar. Abertamente gay,  Andy Bell agregou uma legião de fãs heterossexuais (tal como o vasto grupo de amigos e amigas do seu Facebook que, mesmo não sendo afeitos a se relacionarem com pessoas do mesmo sexo, se emocionaram com a decisão da Casa Branca e aderiram à celebração do amor proposta por Mark Zuckerberg). Mas “A little respect” é ainda mais do que uma canção panfletária e uma carta de amor para um homem que nunca olhou para você. Vince Clark, a outra metade do Erasure, é o cara que escreveu os três primeiros sucessos do Depeche Mode, recém vindo de bandas synth pop como Yazzo e Assembly. Clark empregou sintetizadores brilhantes na música, consagrando uma melodia que — seja numa pista de dança de ontem, hoje ou amanhã — fazem a gente fechar os olhos e pedir um pouco de respeito. Porque, afinal, respeito nunca é demais.

O CLIPE LILÁS: MADONNA, “JUSTIFY MY LOVE”

Eu poderia falar de todas as referências lésbicas, bissexuais, homossexuais, transgêneras, voyuers, sadistas e masoquistas que o vídeo de Madonna traz. Mas a música escrita por Lenny Kravitz inicialmente para Paula Abdul, que chegou ao topo do top 100 da Billboard em 1991, e que rendeu uma das versões remixes mais controversas da carreira da Rainha do Pop (a herege “The Beast Within”, cuja letra é formada por trechos da Bíblia que remontam o Apocalipse), tem uma mensagem mais importante. Também poderia falar de Tony Ward, o namorado bem dotado de Madonna oriundo da indústria pornô gay dos anos 1980, que ficou decadente e foi resgatado pelo estilista paulistano coxinha, Sergio K, para uma recente campanha de moda. Em ” Justify my love”, Ward é colocado em posição coadjuvante — querendo, esperando, precisando — à sua amante (uma Madonna platinada com um coque alto à Bardot). Depois de encontrá-la em um corredor de hotel ajoelhada no chão, com expressão corporal que incita masturbacao feminina, ele a leva para o quarto, mas acaba sentado na cadeira, enquanto ela protagoniza o primeiro beijo lésbico em um clipe na história da música pop. Na cama com Madonna, a modelo brasileira Luciana Silva. Poderia também contar que o pano de fundo do vídeo remete a “La baie des anges”, filme realizado no auge da nouvelle vague francesa, pelo conceitual Jacques Demy. Não é coincidência que “Justify my love” foi filmado em preto-e-branco, propositalmente granulado, em Paris, em 9 de novembro de 1990, em um hotel com estética noïr. Pelas portas dos quartos deste hotel, uma Madonna siderada — meio junkie, meio absorta, meio blasé, meio decandente, meio lobotomizada — espia as cenas de sexo que foram o ponto de partida para a aventura da cantora no livro de porn art “Sex”, lançado no ano seguinte. Eu poderia falar isso tudo de “Justify my love”, mas só tem uma coisa que preciso dizer: o verso da música que estampa os minutos finais do filme musical (“pobre do homem cujos prazeres dependem da permissão dos outros”) é a mensagem mais importante (e atual) sobre o clipe eleito por Madonna, 12 anos mais tarde, como o mais importante de sua carreira.


Comentários